
A alma do velho moinho...
O vento que soprava do Rio Guaíba naquela noite de inverno de 1916 trazia um frio cortante para as calçadas da Rua Voluntários da Pátria. Diante do colossal esqueleto de concreto e ferro, o arquiteto Antônio Faria dos Santos observava a fachada do Moinho Rio-Grandense. Não havia ali os anjos de pedra ou as curvas elegantes que enfeitavam o resto de Porto Alegre. Era um gigante cinzento, liso, puramente mecânico.
— Dizem na rua que esta obra é uma afronta, Dr. Faria dos Santos. O povo está chamando o seu moinho de "monstro sem alma". Dizem que falta beleza. — comentou o mestre de obras, ajustando o casaco.
— Eles não entendem — respondeu o arquiteto, com uma voz baixa. — A beleza deste prédio é a mecânica. Ela está no ritmo. Quando as engrenagens começarem a rodar, o concreto vai cantar. E essa canção nunca mais vai parar. Este lugar vai guardar cada batida e cada história que cruzar suas portas.
O mestre de obras achou que era apenas o delírio poético de um gênio. Mas ele estava errado. O antigo Moinho Rio-Grandense ganhou vida e, por quase um século, foi o coração pulsante da produção de farinha. Até que veio o silêncio. O moinho fechou as portas e as máquinas foram parcialmente levadas.
O gigante cinzento passou anos aguardando que a energia humana voltasse a cruzar seus salões, e que o riso, a música e a vida preenchessem o vazio de suas paredes históricas.
O que o velho arquiteto não sabia era que, décadas mais tarde, a mesma energia industrial que ergueu estas paredes conectaria silenciosamente as raízes familiares que nos trazem aqui hoje, celebrando o casamento de Mariana e Arthur.
As luzes se acenderam novamente e as portas se abriram para esta noite especial. Mas prestem atenção entre uma música e outra, quando o som parecer baixar... Se você fechar os olhos e escutar com atenção o estalar das paredes deste moinho secular, perceberá que a festa de hoje não é o único som cruzando este salão. O maquinário de 1916 ainda está rodando em pensamento. E ele acaba de dar as boas-vindas ao amor que floresceu entre as paredes de concreto.

